20 de setembro de 2010

Lady Murphy

Escrevi esse conto para o concurso de contos do jornal O Globo, mas como eles não sabem escrever regulamento (em uma parte falava que só não podia ter livro publicado, na outra que não podia ter nenhum texto) e eu sou meio distraída (só li a parte do livro, texto publicado eu tenho), ele foi desclassificado. Me ligaram falando que era finalista, depois avisaram que eu não estava mais brincando. Legal. Bom, então publico aqui. O mote era a foto. 


Nuvem sobre o largo da carioca, fotografia de Márcia Foletto



Um risco

Não há distinção. Luz é luz. Só é mais ou menos intensa. O eixo da Terra não forma um ângulo reto com o plano de sua órbita e é esse desvio inexplicado na retidão do que deveria ser justo e exato que faz com que certos pontos da superfície terrestre fiquem diametralmente opostos ao Sol em certas épocas do ano. E é isso que os deixa mais expostos à luz.

O Rio de Janeiro está localizado em um desses pontos e foi só quando li em uma revista de curiosidades essa teoria, que entendi porque sempre achei que a cidade tinha o que eu chamava de “uma luz diferente”. Mas não é diferente. Luz é luz.

Não nasci no Rio, não vivi aqui desde sempre. Mas mudar para uma cidade maior já está involuntariamente incrustado nos planos das pessoas que nasceram no interior. Foi difícil sair de lá, foi difícil não perder o ônibus, foi difícil escolher o que trazer e o que deixar. Foi na estrada que descobri como esquecer é lembrar.
Quando cheguei, tinha no bolso um endereço. Uma banca de jornais na rua Almirante Barroso. O dono, conterrâneo, ex-vizinho, amigo do meu pai, iria me emprestar um sofá até eu arrumar um lugar para morar. E eu assustado. No ônibus que me levou da rodoviária até o Centro, me agarrei à mala como se nela estivesse minha vida. E estava. O que eu era além de roupas dobradas na mala e o medo provinciano? Um menino que não parava de olhar para o chão. Desci do ônibus, não vi nada. Perguntei da banca, me mostraram.

Lembrava muito pouco dele. Era simpático. Mineiro. Me viu criança. “Você vai gostar do Rio”, ele disse. “Pra chegar lá em casa, atravessa aqui, passa pelo Largo e pega o metrô. Você já andou de metrô?”. Não. “É fácil. Sentido zona norte. Desce quando a moça falar Irajá. Sobe a escada, meu sobrinho vai te esperar lá.”. Obrigado. Obrigado. Não sabia mais como agradecer. Mas, olhando pro chão, agradeci mais uma vez.
Atravessei a rua. Sentido zona norte, ele disse. A moça vai falar, ele disse. Era bem no meio da tarde e eu procurava o metrô. Ele me explicou como achar. Mas me perdi. Na luz mineral do Largo da Carioca, no cinza iluminado do Centro do Rio de Janeiro, o eixo inclinado expondo a cidade ao sol. Luz é luz. Foi aí que a sombra me cobriu, a mim e a tudo ao meu redor.

E quando às três horas no Largo da Carioca – pessoas, prédios, calçada, vendedores, água, olhos, branco, iluminados, pastores, vidros, balas, o azul, a câmara clara, o nada – a nuvem irrompeu, foi breve o segundo em que todos olharam para o alto. Um religioso falaria em epifania. Um fotógrafo teria ali o clique de sua vida. Um escritor não deixaria de escrever sobre o instante, aquele exato instante. E escreveria justamente sobre o risco de ser quem se é e acreditar saber ser quem se é às três horas da tarde, sob uma nuvem imensa, no meio do Largo da Carioca.

12 comentários:

Maíra disse...

Putz, a Laura é minha amiga ( e eu estou morrendo de orgulho rs!)

kauana disse...

Amei! Mto bom

Larissa Andrioli disse...

caralho, seu conto é MUITO foda. não se esqueça:

LAURA ASSIS >>>>> ORGANIZAÇÕES GLOBO

lol

Magoga disse...

Fantástico!!!
Me senti o próprio menininho chegando do interior...
Pena não ter classificado, ter ficado no "quase", pena principalmente para o jornal que perdeu escrito ímpar.
Parabéns!

Tatiana Alves disse...

Uma pena, sem dúvida. Quem perdeu foi o jornal.
Parabéns!

apesardoceu disse...

BRAVO!

Amanda Messias disse...

Olha Laura, quando vc ficar bem famosa eles vão te falar assim: Sabemos que você já tem seus textos publicados em muitos lugares, mas sede um pra gente vai?!" rsrsrs

Muito bom, me senti um menino de 17anos perdido no Rio e com muito calor. Hehhehe

Fabrícia Valle disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fabrícia Valle disse...

Ah Maíra...A Laura também é minha amiga...(risos) Muito bem escrito o conto, mas me orgulho mais dos poemas - um quase espasmo! Amo, Lhor. Beijos.

Marla disse...

Gente, mas vc eh bonitinha assim mesmo ou vc quer um real?
Adorei seu conto. Que pessoas de etica heim, desse concurso? rsrs. Nem pra dar uma passadinha, fingir que nao viram as paradinhas publicadas... Eeehhh Laura, quem pode pode ne... Vida dificil!!..;)
Nossa, seu blog me inspirou a talvez, quem sabe; em um futuro proximo, comprar o software de acentos da lingua Portuguesa para o meu laptop. Cansei de escrever assim, feio. Tudo fica mais bonito com os seus devidos acentos.

Márcia disse...

Luz é luz. Sombra também é luz, pela via negativa. O rsico tênue da delimitação. A foto: os arranha-cúes. O texto: o interiorano riscando o chão da cidade grande, arriscando-se ser. A sombra o tira de si, olha o alto e mais uma vez vê a si. Foto-texto, haverá melhor? Luz é luz. E você, luz.

Márcia disse...

Erro de digitação!!! risco tênue - arranha-céus. Uau! Mille fois pardon!