21 de maio de 2016

Cartas para o Eco I



Juiz de Fora, 19 de maio de 2016.

Caro Otávio,

Não sei quanto aos peixes, aos poemas, aos livros, mas nós estamos cada vez mais sumidos das fotografias. A verdade é que o mundo não está para fotografias, porque elas não conseguiriam revelar o mais difícil que, neste momento, não é a luz; é a sombra, e que triste que seja assim.

De acordo com um dicionário etimológico que encontrei outro dia na estante, a origem da palavra “resistência” está no latim “sistere”, que significa “parar, permanecer, ficar de pé, estar presente”.  O prefixo “re” aponta para uma insistência nessa ação, como um chamamento a realizá-la outra vez.  Não sei nada de etimologia e minhas últimas aulas de Latim datam de mais de 10 anos atrás, mas entendi, ou quis entender, que “resistir”, portanto, talvez não seja nada mais do que insistir em estar.

E estamos. Então, resistimos. Pelo não, pela recusa, pela própria resistência. Mas nos perguntamos até que ponto isso é suficiente. Não estamos em um festival de cinema internacional; não temos cartazes em inglês ou francês para mostrar para a imprensa, mas daqui deste palco, deste bar, na Rua Espírito Santo quase esquina com a Avenida Rio Branco, na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, América Latina, mundo: daqui resistimos enquanto procuramos uma maneira de resistir. E por um único motivo: precisamos.

Talvez eu tenha escrito essa carta para falar dos seus poemas e dos peixes. Talvez isso seja uma resposta àquela sua mensagem sobre o golpe. Talvez eu apenas precisasse escrever alguma coisa. Ou talvez seja só um modo de reaprender a respirar.

Com amor,
Laura


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