22 de maio de 2016

Cartas para o Eco II



Juiz de Fora, 19 de maio de 2016.

Caro Anderson,

Lembra daquele conto do Caio Fernando Abreu? “Aqueles dois” é o título. No conto, depois que Raul e Saul deixam a repartição onde trabalhavam e de onde foram expulsos por causa do ódio e da intolerância – esses fantasmas que sempre existiram, mas parecem a cada dia mais rondar nossos passos –, aqueles que ficam para trás “tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre”. E, conforme o narrador confirma, de fato foram.

Longe de mim ser uma entusiasta de finais felizes (na literatura, porque a vida, sabemos, é outra coisa), mas talvez por isso essa certeza da infelicidade colocada de forma tão assertiva no final deste conto me ganhou desde sempre. E te digo o motivo: é muito difícil saber quem vai ser feliz no final. Mas é fácil sacar quem vai ser (e é) infeliz para sempre.

E nesses dias tão sombrios, a impressão de todo mundo com quem converso é que a infelicidade é um fato. Que não adianta resistir, existir, insistir em estar, acreditar. Quando nos tiram a liberdade, a escolha e a liberdade de escolha parece que o único caminho é mesmo a impossibilidade. E eu confesso que já me deixei levar por essa impressão também.

Mas o mundo é muito grande, a vida é maior que tudo isso e hoje acordei sabendo que, assim como naquele seu poema, estamos, sim, mais altos. E é por isso que escrevo essas cartas. É sempre bom lembrar que nós estamos e sempre estaremos do lado de fora daquela repartição.

Com amor,
Laura

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