13 de julho de 2013

Adeus

I

nós dois e um mesmo salto
décimo quarto andar
não pensar em motivos
enquanto caímos
você explica
em linhas gerais
porque prefere a natureza
à cultura
e discordamos duas vezes
antes do último impacto


II

quando voltei à casa
aquela noite
todos estavam mortos
por isso não me viram entrar
eu soube
eu vi
e era estranho saber
ainda
existir e saber
que ali algo acontecera
sem mim
como aconteciam os astros
como aconteciam os dias
as reações químicas
e tudo que vem depois da luz
e da força
das escolhas


III

eu que hoje esvazio
maços de cigarro que não me pertencem
a paciência de amigos em outros continentes
descobri que o mundo
continuava correndo sem mim
se eu desse aquele salto
astros cigarros noites poemas
o reflexo dos faróis nos vidros dos prédios comerciais
nomes estranhos grafados em viadutos abandonados
estradas mais escuras que a noite anterior
tudo continuaria no mesmo lugar
talvez eu apenas me tornasse
uma inicial desbotada no ombro esquerdo
de alguém que um dia eu deixei para trás
que se gastaria
como tudo se gasta
que se apagaria
como tudo se apaga
mas que antes de esmaecer e virar
nada
seria âncora
sumário
e ponto final.

2 comentários:

Daniel Rocha disse...

Muito legal o teu poema. A primeira estrofe me lembrou Céu Embaixo, do Leminski.

Abraços e muita poesia!

Laura Assis disse...

Não conhecia esse do Leminski, Daniel! De fato, tem proximidade.