18 de abril de 2013

Existem cerca de 300 leitores de poesia etc - parte III


Em 2012 comecei a publicar aqui uma série de breves comentários sobre bons livros de poesia brasileira que li recentemente e sobre os quais acho que vale a pena falar (para entender melhor clique aqui). Escrevi sobre Sétima do singular, do Diego Grando e Ramerrão, do Ismar Tirelli Neto. A intenção era ter postado logo em seguida outros textos, mas só agora pude retomar os comentários, aproveitando então para postar sobre o livro do poeta que (sem querer e/ou saber) batizou a série. O texto é sobre Formas do nada, do Paulo Henriques Britto (Companhia das Letras, 2012)

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Para quem conhece sua obra e está familiarizado com a cena da poesia contemporânea no país, é difícil discordar que Paulo Henriques Britto é o maior poeta em atividade no Brasil. Com cinco livros de poesia publicados, nenhum deles com classificação abaixo de “muito bom”, é impressionante como a aparente simplicidade dos versos de Britto esconde movimentações existenciais e filosóficas sem que, no entanto, isso se reflita em um suposto carregamento da linguagem.

"Como livrar-se do estigma/de se saber terminável?/(A inexistência do enigma/é uma ausência insuportável.)". Pois é, vida está aí, a morte também, resta viver e, de um modo ou de outro, esse parece ser o pano de fundo da maioria dos textos, grande parte carregada de um sarcasmo melancólico, também ele minuciosamente construído, passando muito longe do tom modernista de blague que marca parte da produção poética hoje:  "Acrescentar ao mundo um morto a mais/é só o que a vida garante. O resto/é risco, é vai da valsa. Tanto faz/improvisar ou decorar o texto,/ser pedra ou imitar os animais,//correr atrás de lucro ou prejuízo./Dá no que der. E, seja lá o que for,/terá sido o necessário".

A tentativa de organização do mundo e de colocação do "eu", perdido em uma existência desprovida de sentido identificável, pode também ser encarada como um dos temas mais recorrentes, tanto na produção anterior quanto neste Formas do nada. Mas essa tentativa, que vai se revelando falha ao longo do volume (“Desista, que a vida é incerta./Ou insista. Dá no mesmo.”), objetiva menos um sucesso do que de fato constituir-se como a prova quase incontestável de sua impossibilidade. Como no poema “Mosaico”, no qual fica claro como o nosso esforço na tentativa de organização do tempo e dos eventos não é nada além de “um remédio contra o medo/de nada haver – nem padrão,/nem projeto, nem destino - / no mundo, nada senão/ o amontoar-se dos dias.”

E não só o “eu”, como também o próprio discurso poético, se encontra deslocado nesse contexto, sendo a todo momento questionado, contestado e até mesmo negado: “Melhor calar-se para todo o sempre, em vez/de ficar o tempo todo a alugar//todo mundo, sem sair do lugar,/dizendo sempre, sempre, a mesma coisa/que nunca foi necessário dizer./Como faz esse poema. Talvez.”

Outra característica que chama atenção no livro (e que já vem também de  outras obras do poeta) é a sofisticação técnica e formal e o uso das formas fixas, podendo-se apontar, por exemplo, a regularidade métrica das séries de sonetos "Biographia literaria" e “Seis sonetos soturnos”, variados em petrarquianos, shakespearianos e monostróficos, sendo que a segunda traz, em sua maioria, versos decassílabos e trabalha – em alguns textos mais e em outros menos rigorosamente - com sequências de rimas, como em “IV”: “Caminhos que só levam com certeza/a caminhos que dão na estaca zero./Nada de novo. A única supresa/é constatar que mesmo o desespero,//a vaga mariposa persistente/que não se mexe nem com a luz acesa,/termina se tornando simplesmente/uma espécie de enfeite sobre a mesa”.

A utilização do enjambement também permanece constante, como em “V”, da série “Literaria”:

V


Céu azul. Cores vivas. Você rindo
de alguma coisa ou alguém que está à esquerda
do fotógrafo. É talvez domingo.
É claro que essa sensação de perda

não está na foto, não – não está na imagem
extremamente, absurdamente nítida.
E se fosse menor a claridade,
ou se estivesse sem foco, ou tremida,

ou se fosse em sépia, ou preto e branco,
talvez a foto não doesse tanto?
Você, às gargalhadas. O motivo

você não lembra. A foto é muito boa.
Naquele tempo você ria à toa,
você lembra. Você ainda era vivo.

E é por esses e outros motivos (que só podem mesmo ser experimentados na leitura, daí a recomendação) que em Formas do nada a dicção poética de Britto chega a um nível de excelência só comparável a nomes enormes da literatura brasileira, tornando impossível pensar a poesia brasileira de hoje sem lê-lo.

Neste vídeo o próprio Paulo lê o poema V da série “Dez sonetóides mancos”, de um livro  anterior a Formas do nada, Macau (2003):




2 comentários:

Fabrícia Valle disse...

Muito bom, Laura!E isso aqui é faca entre os dentes: “Melhor calar-se para todo o sempre, em vez/de ficar o tempo todo a alugar//todo mundo, sem sair do lugar,/dizendo sempre, sempre, a mesma coisa/que nunca foi necessário dizer./Como faz esse poema. Talvez.”

Laura Assis disse...

Não é? Insuperável.