31 de julho de 2012

Existem cerca de 300 leitores de poesia etc - parte II

Continuando a incrível e maravilhosa série de comentários de livros de poesia brasileira contemporânea (leia mais sobre a iniciativa clicando aqui), hoje falarei de um dos grandes livros de 2011: Ramerrão, do Ismar Tirelli Neto (7Letras, 2011).

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Modo de vida caracterizado pela invariabilidade de ocorrências, que se repetem tediosamente. É essa a definição primeira de “ramerrão” ou, na sua variação mais conhecida, “ramerrame”. Tédio e repetição. Certo. Mas é necessário pensar então em antônimos para essas duas palavras, porque é justamente o contrário dessa definição o que mais se aproximaria dos temas do mais recente livro de Ismar Tirelli Neto, Ramerrão (7letras, 2011).

Ismar lançou em 2008 Synchronoscopio (7letras), seu primeiro livro, que chama atenção principalmente pela dicção peculiar do autor. Textos como “Rufus” (com seu impactante verso final, que ecoa na cabeça como uma espécie de mantra: “precisamos de um plano./Um projeto./Um projétil.”), “Ansiedades quando a uma academia” (quando o poeta ultrapassa o limite entre a lírica e a narrativa, característica recorrente em sua produção) e “[ele não gosta]” (no qual se debruça sobre sua própria produção, no caso o poema “Leviandade”, do mesmo livro) apresentam um nível de sofisticação e de consciência de linguagem não muito comum em livros de estréia.

Ramerrão não poderia, portanto, ser outra coisa que não justamente o livro seguinte do autor de Synchronoscopio, pois é possível perceber o aprofundamento e amadurecimento da linha poética anunciada no livro de estreia. O “trabalho do espanto” (verso de um dos melhores poemas do volume) é aqui potencializado em várias instâncias, como na imprevisibilidade da linguagem, por exemplo.

Ismar não é propriamente um poeta da língua – no sentido da poesia metalinguística que já andou tanto em voga e ainda é temática recorrente na poesia de hoje – e sim da linguagem, da imagem, mas menos da representação do que da criação.  E ao longo do livro são várias as imagens poéticas improváveis  como "teu coração uma capela com cãimbra" ou "agora / lê-se como slogan, a / sua presença, & linda / como um poema / escrito num pônei". E uma das melhores imagens de solidão dos últimos tempos: “Jantara fora aquela noite, em companhia de um hd externo”.

A poesia de Ismar  Tirelli Neto segue ainda na contramão de uma constante na poesia contemporânea, a tendência à blague, vertente herdeira direta dos poemas-piada modernistas. O que não significa que a poesia de Ismar seja completamente sóbria e desprovida de humor, apesar da dicção mais séria. Pelo contrário. Este só não é tão explícito, não descamba para o riso fácil, aparecendo mais como resistência ou resignação. Como em “Elpenor” – poema recheado de referências eruditas, desconstruídas em um texto quase despretensioso –, a graça da conformidade é amarga: "oferta quieta a mundo idem./Uma vez a criança contra-/feita, o Pai deu-lhe o nome de Elpenor/Elpenor!/os colegas de classe não/vão deixar barato (...)/Elpenor também abandonou um mestrado em Kant//para seguir carreira de humorista/não era exatamente um colírio/mas se a luz lhe acertasse/deste ou daquele golpe/podia parecer quase grego".

Ramerrão é, em geral, um grande livro, importantíssimo para quem tem interesse em entender a poesia brasileira contemporânea, mas os momentos que mais merecem destaque ficam por conta de “10 Aproximações, ou Homossexualidade Enquanto Nação” – um texto único, que mereceria atenção especial e detalhada além de um fragmento de resenha como esse –, e do belíssimo "O amigo solteiro", que reproduzo aqui:

O amigo solteiro 

− Três casas num só ano, e um idioma 
em vias de sumir, você disse? 

Toda a minha vida eles 
costeiam. Cordata, 
a vista não deixa entrar. 
Fiquei. Rendido às formas 
da delicadeza. Esgarço 
as teias de aranha para 
então bordar as minhas, 
acerto pelo horizonte 
o luto das molduras. 
Aos domingos distribuo 
ao povo visitas inesperadas. 
Me acompanha? 
Assino uma carta, atento 
ao som rasteiro & tramador 
executado por meu próprio nome. 
(Lá as pessoas se perdem). 
Aos domingos vou ao cinema. 
Gargalha-se como incêndios 
em grandes edifícios comerciais. 
Volto e percebo 
que sigo porejando muito fino 
das paredes, desde sempre. 
Estavam a bem pouco de inventar o telefone. 
Fiquei porque o trem não me apanhou. 

No vídeo abaixo, feito pelo pessoal da revista Modo de Usar & Co, Ismar lê alguns poemas do livro.

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