20 de julho de 2012

Existem cerca de 300 leitores de poesia no Brasil hoje (e nós estamos entre eles)

A estatística do título foi arriscada pelo Paulo Henriques Britto, saiu em um artigo no Prosa & Verso e causou certa polêmica na época. Mas, apesar de um pouco pessimista, talvez não esteja tão distante da realidade assim (o que denunciaria que provavelmente temos mais poetas do que leitores de poesia, basta observar a fila do microfone aberto nos saraus por aí... mas como escrever poesia sem ler poesia? bom, talvez isso explique muita coisa). 

Tentando então fazer minha parte no talvez imaginário movimento de projeção da poesia brasileira contemporânea, resolvi postar uma série de breves comentários sobre bons livros de poesia brasileira que li recentemente e sobre os quais acho que vale a pena falar. De bônus, um poema inteiro de cada (editoras, não me processem, estou divulgando os livros e vocês podem até ganhar dinheiro com isso), além de vídeos, links etc, para que quem não conheça os poetas chegue até eles mais facilmente.

E o primeiro livro a ser comentado nessa série é Sétima do singular, do Diego Grando (Não Editora, 2012).


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“Que agora venham os anos de azar/e os múltiplos de sete/esse tão infamiliar número primo.”, anunciava “Em cacos”, texto que já dá boas pistas do que vamos encontrar neste Sétima do singular e é, provavelmente não por acaso, o último poema de Desencantado carrossel, livro de estreia de Diego Grando.

Na primeira publicação de Diego (assim como no livreto 25, Rua do Templo, lançado pelo poeta em 2011) já é possível perceber como as movimentações semânticas e rítmicas, as estratégias de criações de imagens, os jogos de linguagem espertos (que não são “espertinhos”, ainda bem) e a subjetividade lírica são ferramentas usadas com competência e sensibilidade pelo poeta.

E é justamente essa questão da subjetividade o eixo que amadurece e encontra enorme espaço em Sétima do singular, onde aparece de uma maneira diferente, uma vez que é trabalhada na forma da multiplicidade. O que o poeta propõe em seu segundo livro é uma extremização (essa palavra existe?) da alteridade, da experiência do outro, dedicando cada uma das sete partes do livro a uma possibilidade de identidade e de conflito. Sete seções apresentam cada uma sete textos que brincam (ou às vezes falam bem sério) com a identidade do eu poético, como “Sfumati”, na qual os poemas versam sobre o ato de fumar (ou não), “repentinos”, de textos com eixo temático relativo a profissões e “etcetera e tal”, com poemas metalinguísticos, que tratam da relação poeta versus poesia.

Mas a questão temática não é o único ponto que chama atenção no livro de Grando, uma vez que o trabalho com a linguagem também não fica em segundo plano. Estruturalmente falando, vários poemas são muitíssimos bem cuidados, o que pode ser visto, por exemplo, no ritmado “método: depoimento”, escrito em decassílabos heroicos, com a épica estrofação em oitava rima:



método: depoimento

meus versos eu encontro por acaso
sozinhos num boteco - copo e rum -
que mostram muito e mesmo assim são rasos
não levam a ninguém, lugar nenhum
e mancam de sentido ou tem o prazo
vencido (noves fora sobra um):
brevíssimos insights cotidianos,
paredes de azulejo e desenganos.

enquanto eu os anoto em guardanapos
translúcidos - fritura de croquete -
um disco do roberto vai da capo
ao fim, e como se fosse um canivete
o grito de uma kombi corta o papo
(no vidro uma plaqueta: faço frete)
de velhos companheiros de estudo,
de trilha e de gamão, xadrez e ludo.

é essa a minha nova arte poética
e posso garantir que faz sentido
e mais, que tenho intuição profética
que vejo muito além e assim tem sido:
o nada retratado em minha estética
estática e instantânea é conhecido
de todos (do garçom ao cozinheiro)
e ecoa como frases de banheiro.


Formas fixas também aparecem nos sonetos "manifesto" e "manual do poeta sem manual", este último trazendo versos finais que inclusive refletem sobre a questão da métrica  "e a cada metro que não meço reinvento/sozinho a inanição da poesia". Já a seção 'três e quatro: sete" traz poemas que trabalham com a melopeia, principalmente na forma de aliterações, como o ótimo "vide verso": "(...) meu verso:/um revide/à vida/que me invade/-ávida mágoa-/como água/fervida".

"Ser um ou ser vários/não era bem a questão/ mas foi o ponto de chegada", dizia o mesmo "Em cacos" citado no início do texto. E é justamente esse lugar poético alcançado pelo movimento de deslocamento da subjetividade, conjugado ao competente manuseio da linguagem, que faz com Sétima do singular seja um livro de destaque da produção poética contemporânea.

Para promover o lançamento de Sétima do singular, o autor convidou seis pessoas para gravarem vídeos lendo cada uma um poema do livro, além dele mesmo, claro, que aqui lê “Nunca se sabe”, texto que abre o volume. Confira:




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Vou tentar postar um texto novo a cada 3 ou 4 dias (é bem provável que eu não consiga). Mas os próximos, já (quase) prontos, são comentários sobre os livros mais recentes de Ismar Tirelli Neto e Paulo Henriques Britto e as estreias de Frederico Spada e Anelise Freitas. Talvez nessa ordem, talvez não.

4 comentários:

Fred Spada disse...

Como Amarílis Lage apontou em sua matéria sobre Drummond, Flip e os caminhos da poesia contemporânea, no jornal Valor de 29/06/12:

"O fato é que a poesia não está no top 5 de gêneros favoritos do brasileiro ("Bíblia", livros didáticos, romances, livros religiosos e contos, nessa ordem, segundo a mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil). Ela aparece em sétimo lugar, logo atrás de literatura infantil. E, nas pesquisas de mercado feitas pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), a poesia nem aparece como categoria específica.

A pedido do Valor, a GFK, que acaba de divulgar dados preliminares do serviço Painel do Livro, sobre venda de livros no país, fez um recorte sobre poesia. Segundo a consultoria, as obras de ficção correspondem a 23% das vendas (a maioria, 61%, é de não ficção). Considere só o grupo dos livros de ficção: a venda de poesia corresponde a 1,8%.

É uma proporção parecida com a de títulos de poesia dentro da Livraria Cultura, por exemplo. Dos 25 mil títulos que há numa loja da rede, em média, cerca de 500 são de poesia. O que vende, diz o gerente de vendas da rede, Ricardo Schil, são autores consagrados, como Drummond, Bandeira e Fernando Pessoa. "Tirando os clássicos, o grande nome é Manoel de Barros, que tem um resultado comercial impressionantemente bom."" (a matéria está disponível aqui: http://starnet15cult.blogspot.com.br/2012/06/valor-2906-nao-serei-o-poeta-de-um.html)

Ao que parece, a poesia contemporânea move-se, de fato, em um universo paralelo ao mercado editorial convencional, buscando formas outras de divulgação, nas quais a questão financeira, em geral, é posta de lado: blogs, revistas, fanzines, jornais, suplementos literários, saraus, oficinas, etc. - o que, a meu ver, é bastante saudável, embora defenda também a publicação formal, com capa e ISBN. Além disso, a própria academia parece refletir os dados acima citados, dada a predileção pelo trabalho com a prosa em monografias, dissertações e teses. Por fim, sem o apoio de uma lei de incentivo ou de investimento próprio, dificilmente um poeta estreante consegue publicar seu primeiro livro e colocá-lo à vista de eventuais leitores (a distribuição, todavia, mais democrática, parece-me ser falha independentemente do gênero literário em questão).

Quanto à apresentação da poesia de Diego Grando, o convite à leitura é mais que bem vindo. Parabéns pelo texto e pela iniciativa, Laura! Beijos,

Fred

Laura disse...

Fred, eu concordo com você, os números são desanimadores. Mas por outro lado conheço poetas estreantes que tiveram tiragens de 1000 exemplares esgotadas. Acredito que bem nesse esquema que você citou, de sarau, oficina etc.

Enfim, é preciso criar caminhos. O que eu acho estranho é que às vezes os próprios poetas não estão interessados na produção contemporânea, isso me aflige de verdade.

Fred Spada disse...

E acesso à leitura há aos montes, para além das livrarias e das bibliotecas (quando estas se atualizam, claro): autores disponibilizando seus livros online, gratuitamente (Paulo Franchetti posta seus poemas no Facebook, Angélica Freitas e Ricardo Domeneck disponibilizaram alguns de seus livros para download, por exemplo, além de uma profusão de blogs e sites individuais e coletivos/antológicos). Parece mesmo faltar interesse, vontade de ver o que está sendo feito de/em nossa literatura. Ultimamente, tenho lido majoritariamente poesia, e bastantes autores ligados a Juiz de Fora (Prisca, Iacyr, Tiago Rattes, Kadu Mauad, André Capilé, Carol Barreto, Knorr, Larissa, Anelise, Alexandre [um colchete: dois livraços estes últimos!]...), mas sempre mesclando com outros autores (os publicados no Plástico Bolha, Paulo Henriques Britto, Sérgio Bernardo, Daniela Lima...) -- e os que ainda não pude ler vou listando, pra corrigir as lacunas depois.

Joselito Nascimento Otílio disse...

FAÇO DA POESIA UMA GRANDE TERAPIA E ENCONTRAR QUEM GOSTA DESTA GRANDE ARTE PRECISA SER RECONHECIDO. AMO POESIA E FAÇO POR QUE GOSTO... APROVEITO PARA FECHAR Parceirias com Poetas e Poetisas... Vamos divulgar mais nossos espaços, sites, blogs e para isso precisamos interagir mais. Publicar, marcar um ao outro, comentar... Pq assim deixamos de ser ‪#‎sociedadedepoetasmortos‬... Começo deixando o link do meu Blog Meus Poemas... Minha Vida! Um espaço todo nosso. Os aguardo e pode deixar seus links que prometo seguir todos.
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