16 de maio de 2011

Última chamada


Abro minha caixa de emails, clico em nova mensagem e em destinatário escrevo a primeira letra do seu nome. Seu endereço logo aparece, junto com alguns outros desimportantes e te escolho como já ia mesmo escolher desde que abri a janela do navegador. No campo assunto, digito apenas: oi. Fico pensando, olhando para a tela e pensando, olhando para o nada que é esse lugar, que é isso tudo, que sempre foi e pensando o que eu mais eu iria escrever ali.

Sim, eu deveria estar trabalhando. Sim, não faz sentido de repente abrir o email e, depois de tanto tempo, escrever apenas oi. Mas recentemente bloquearam todos os sites interessantes, todas as redes sociais e só me resta mandar e receber emails. Agora abro e repasso correntes, emails de compra coletiva, pedidos de ajuda para encontrar parentes desaparecidos, solicitações de assinatura em protestos de causas ambientais, propagandas pornográficas e qualquer outra coisa que me roube um minuto que seja da incrível, emocionante e estarrecedora função de vigiar planilhas.

Deseja enviar essa mensagem sem texto no corpo do email?. Sim, até porque não tenho mais nada pra falar e essa pequena palavra, essa partícula, essa coisa quase insignificante, esse oi, serve pra quase tudo. Pode significar ainda existo, ainda estou aqui, ainda me importo e, ao mesmo tempo, pode ser uma pergunta: você ainda existe?, você ainda está aí? e, principalmente, pode querer dizer – e essa é a pergunta que eu tenho mais medo que você responda – , oi também quer dizer você ainda se importa?.

Envio o email e volto para as planilhas. Passarei as próximas horas clicando em comandos inúteis, lendo números inúteis, chegando a conclusões inúteis que escreverei em relatórios inúteis e enviarei para pessoas inúteis que jamais irão lê-los. Tudo bem. Vou deixar meu email aberto e, de cinco em cinco minutos, vou checar se chegou alguma nova mensagem.

Muito tempo vai se passar até que eu finalmente tenha a certeza e todo mundo no escritório vai achar um pouco estranho isso de eu, de repente, sem nenhum aviso prévio e como se fosse só mais um gesto cotidiano, simplesmente jogar o computador no chão, fazendo com que a tela do monitor se quebre em pedaços bem pequenos.

3 comentários:

Tiago Rattes de Andrade disse...

"Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube
e digo da palavra: não digo (não posso ainda acreditar na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto."

Ana C.

lembrei disso, na hora...

Farley Rocha disse...

Crônica bem contemporânea, do agrado e aos moldes do século XXI: tecnologicamente familiar...
Abç.

Laura Assis disse...

Ana C. = amor verdadeiro, amor eterno.