1 de fevereiro de 2011

Coleção

Da primeira vez doeu tanto que demorei a entender que sensação era aquela. Ela me disse que seria de verdade. E foi. Primeiro ficou vermelho e essa é a fase que dói mais. Arde. Aos poucos foi ficando roxo, e eu até gostei, porque eu gosto de roxo. Só não podia encostar, ainda doía, era como ter dado uma batida forte na maçaneta da porta. Mas minha parte preferida foi quando ficou azul. Eu não me conformo com as veias azuis do meu pulso, eu acho tão antinatural. E, de repente, uma mancha azul na pele. É estranho, quase subversivo. Até que foi esverdeando, amarelando e já não teve tanta graça mais, porque poderia ser qualquer coisa.

Foi a primeira. Vieram muitas. Era como fazer uma tatuagem, só que todos os dias. Comecei a ter que prestar atenção nas roupas que eu usava. É um pouco estranho ter tantos hematomas, há uma grande chance das pessoas pensarem que você tem problemas. E não é mesmo muito normal guardar marcas de dentes alheios na pele. Era exatamente o que eu fazia.

Às vezes ela me deixava escolher onde iria ser e eu tive que começar a pensar em lugares improváveis. A dor já não era critério, eu preferia a permanência das marcas. Conferia várias vezes por dia, era parte do que me fazia ser dela. Eu gostava quando ela via uma e dizia “nossa” e arregalava os olhos sorrindo, sabendo que faria mais quantas quisesse, enquanto quisesse.

Por isso, quando a última começou a esmaecer, essa sim foi a pior parte. Era a última. Eu sabia que ela ia ficar amarela, se dissolver, sumir e depois dela não haveria mais nenhuma, nunca mais, e pensar nisso doeu muito mais do que aquela primeira vez, quando ela avisou que ia ser de verdade. E foi.

5 comentários:

Alisson da Hora disse...

Doentio. E belo.

Anônimo disse...

Nada doentio. Lindo e com um quê de melancolia. Autobiográfico?

matheus novaes disse...

Já ouviu A Heat Rash in the Shape of the Show Me State(Letters from Me to Charlotte)?

She'd a bruise so black they watched it fade through the full spectrum of colours.
They kept it like a pet, a private joke; they told no others.
And how the tissue repaired, and how it turned to yellow
And she found it disgusting, 'cause it didn't match her clothing.
He said "that's not yellow, it's golden".

Larissa Andrioli disse...

é doentio, sim. mas é foda. como tudo que já li seu, aliás.

Laura Assis disse...

Matheus, não conhecia. Seria uma ótima epígrafe.